Ubatuba
Cada vez que pulo no mar entendo o motivo da evolução. Compreendo o primeiro peixe que pensou em deixar aquele ambiente hostil e se aventurar em terra firme. Se Deus, em sua infinita sabedoria, desejasse que o homem vivesse na água, seríamos palmípedes.
Como mamífero, herbívoro (no meu caso), bípede terrestre, tenho repulsa em me comportar como um animal com brânquias. Quero ver meus pulmões alveolados cheios de ar. Eu, o elefante, o cavalo, as emas assim como os tatu-bolas temos essa coisa de gostar de terra. Não adianta.
Entendi tudo isso em uma tarde de domingo, meu amigo Mario - capitão meu capitão -parou o veleiro a trocentas milhas náuticas da costa (trocentas milhas náuticas é igual a trocentos quilômetros multiplicados por 0,61) e deu a ordem para nadarmos até a praia. Eu meti o pé-de-pato (que os mergulhadores insistem em chamar de nadadeiras) em mais uma tentativa inútil de me tornar palmípede, contra os desígnios de Deus (vide primeiro parágrafo), nadei, nadei, nadei... nadei e com a mesma habilidade de um jaboti -que por maior o esforço, não é uma tartaruga- me afoguei. Então parei, me acalmei, olhei para o barco que agora estava trocentas milhas náuticas dividido por dois de um lado e a praia, outras trocantas milhas náuticas dividido por dois do outro lado. Pensei em desistir e simplesmente afundar, afundar seria a coisa mais natural a se fazer, que porra um mamífero estava fazendo lá, no meio do mar verde e infinito? Mas, por pura teimosia, continuei. Virei de costas e com o nariz para cima, respirando como deveria ser, continuei nadando de costas até a praia. Tropeçando nas pedras com as fuking nadadeiras pé-de-pato e uma máscara que me faziam sentir a criatura da lagoa negra emergindo para a superfície. Ah superfície... passarinhos, minhocas, aranhas, cobras, lagartixas, lesmas, goiabas, coqueiros, pinheiros, barro, dinossauro e tudo mais que anda sobre a crosta. Que saudades de vocês.
ps: Quem achou que eu nadei de volta até o barco se enganou, vai te foder, eu quero um Táxi.
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