29.11.01

Nasci em Guarulhos

Por um destes deslizes da natureza, nasci em Guarulhos. Sempre tive um pé atrás com relação ao preenchimento do campo “naturalidade”, algumas vezes até confundia – propositalmente – “naturalidade” com “nacionalidade”, só para evitar escrever Guarulhos nesses intermináveis formulários. Quando criança, nas tradicionais brigas da pivetada lá da minha família, aquelas brigas onde o mais forte é quem ofende mais, sempre soltavam um “guarulhense” que acabava com a minha chance de resposta. Eu tinha resposta imediata para tudo, podiam xingar do nome de bicho que fosse, de todos os palavrões conhecidos por crianças de seis anos, mas o “guarulhense” era demais, acabava comigo, não tinha resposta porque aquilo era verdade, no meio de tanto paulistano eu me sentia diferente, me sentia um estrangeiro vindo de El Salvador para São Paulo, pior que soco na ponta do queixo.

Hoje cresci e deixei as brigas de criança de lado. Minha vida, de segunda-a-sexta, é limitada a resolver problemas em computadores, servidores, tudo é botão-comando-livro-script, tudo é tão bege. Chega o fim-de-semana e vou andar de bicicleta, andar de bicicleta é simples, não precisa nem de servidor, que maravilha. De tanto ficar na cidade de cimento, no domingo eu quero é ver barro. Então, pego a rodovia Fernão Dias e só paro em Mairiporã, neste trajeto passo por Guarulhos. Minha velha Guarulhos que tanto me atormentava na infância, ao passar por lá e seguir em direção das montanhas me sinto feliz, feliz por ser guarulhense, quer saber? Que bom que não nasci em São Paulo. Onde mesmo está aquele formulário?