18.2.04

Boa subida Pirata


Pantani e Lance Armstrong
A montanha

Cocaína, tranquilizantes e dez caixas de diferentes anti-depressivos encontradas no seu quarto de hotel, quarto que permaneceu por seis dias antes do seu fim. No último dia, ligou para o restaurante da esquina, pediu um omelete, o proprietário não cobrou a conta e resolveu levar pessoalmente a entrega. "Ele estava cansado, com cara de alguém que havia chorado", revelou posteriormente o dono do restaurante. Ligou para a recepção, "me deixem em paz, não quero ser incomodado". No dia seguinte, o omelete estava intocado, pó branco no chão, uma cadeira caída, a montanha já não existia mais.

Sábado pela madrugada, recebi um email.
"Cara, o cycling news acabou de informar a morte do Pantani, é verdade? sabe de algo? viu isso em outro lugar?"

Infelizmente é verdade, Marco Pantani, vencedor do Giro di Italia e o Tour de France em 1998, estava morto. Um dia, solitário, pegou um trem para Milão, sem bagagens, sem esperanças, se hospedou em um pequeno hotel, fez quatro ligações telefonicas para telefones diferentes, nenhuma teve custo maior que 25 centavos de euro, demonstrando que não encontrou quem procurava. Escreveu algumas notas em nove páginas, "É tudo um complô. Todos sabem como funciona o ciclismo, mas só eu fui atingido". "Christine, a tristeza é grande sem você".

Nas montanhas mais altas, ele estava lá, girando com leveza, rápido, atacando no final da montanha onde todos já pareciam sem forças, voava solitário, como é o destino de todo escalador. A bandana colorida usada sempre sobre a cabeça raspada lhe rendeu o apelido "Il Pirata" (O Pirata). Nas provas de ciclismo os fãs agitavam bandeiras com ossos cruzados e uma caveira com a tradicional bandana, o símbolo Pirata. Como num ritual, Pantani jogava a bandana no chão, a torcida levantava, os ciclistas do pelotão avisavam em desespero "Ataque Pirata!, Ataque Pirata!!", era o sinal do ataque eminente, os rivais já sabiam que teriam que sofrer para permanecer na liderança.

Com a força de um mamute, o alemão Jan Ullrich pedalava com a camisa amarela, a famosa camisa do Líder, a chuva caia forte na legendária subida Galibier, era 1998. Pantani apertava o passo, "Ataque Pirata!, Ataque Pirata!", o alemão bufava, pedalva com força descomunal mas não resiste ao ataque. Pantani passa e defende a liderança, é o primeiro italiano em 33 anos a vencer o Tour de France. Avante Itália! Para sempre essa corrida será lembrada.

Quantas montanhas já subimos nos imaginando Pantani, é triste ver um ídolo de muitos partir. Agora e por muito tempo, em toda escalada solitária, vou me lembrar dele. Como homenagem, a partir do próximo Giro di Italia, a montanha Mortirolo, da 19º etapa, passará a ser chamada de "Cima Pantani", agora ele se tornou a montanha.

O declínio do império americano

"Os Estados Unidos estão muito conscientes de que dentro de 40 ou 50 anos terão dois concorrentes que vão se apresentar no cenário mundial como aspirantes ao domínio mundial ou, pelo menos, a compartilhar esse domínio. Serão eles a China e a Índia"

Saramago cutucando a onça
a democracia é uma "piada"
Enquanto os motoristas nos atropelam por aqui...

Operadora dá bicleta com kit viva-voz para celular na Holanda

AMSTERDÃ (Reuters) - A operadora de telefonia celular Orange anunciou na terça-feira que vai oferecer bicicletas equipadas com kits viva-voz para ciclistas que se tornarem clientes da empresa na Holanda, país com mais bicicletas que habitantes.
(...)
Mais de 1,2 milhão de holandeses, ou um quarto da população empregada, vão para o trabalho de bicicleta todos os dias. A Holanda tem 16 milhões de habitantes.
(...)
Os assinantes podem deixar seus telefones antigos em uma base instalada na bicicleta que é equipada com a tecnologia de transmissão de dados sem fio Bluetooth. Com o celular na base, a conversa é transmitida via ondas de rádio para o fone de ouvido e vice-versa. A base ainda recarrega o celular quando o usuário está pedalando.


A história toda no portal msn

17.2.04

Vai fazer algo sexta?


Só vou se der barato
Domingo


Olha eu ai, no fim do pelotão, pegando a roda do "hermano Luiz".


E ai "Professor", será que vai chover? Ninguém é de papel, vamos pedalar.
Vamos falar sobre Educação

MEC propõe isenção de imposto em troca de vaga em faculdades
Aqui, para assinantes do UOL

Tarso fazendo a lição de casa, muito bem ministro. Para quem, como eu, é apaixonado pela possibilidade de dar educação para todo o povo, não importa se alegam que o ministério estaria comprando vagas nas universidades privadas, queremos ver os alunos nas escolas.

O próximo passo é perceber que a maioria pobre paga para a minoria rica estudar nas universidades públicas. Ai, quando tudo tiver certinho, podemos lembrar que a produção acadêmia das universidades privadas é despresível e na pública, tocada por verdadeiros heróis. Uma universidade que não incentiva a produção científica, nem precisaria abrir as portas pela manhã.

Temos muito que andar, mas sempre começamos com o primeiro passo. Vou prestar atenção no desfecho desta história, faça isso você também. Outro dado que me fez feliz foi ver o ministro citando cotas para negros, índios, deficientes e alunos de escolas públicas, tudo no mesmo balaio. Demorou para alguém perceber que cotas para negros não resolve nada. Precisamos de cotas para a população carente, independete da cor, sexo, raça ou religião. Novamente, muito bem, parece uma boa idéia que em 60 dias pode virar um projeto de lei. Tomara.

16.2.04

Ciclistas vs. Acasalamento

Sábado os amigos do meu prédio me chamaram para balada, era o velho esquema casalzinho e sobrava uma, ai que eu entrava, minha tarefa era empatar o jogo para evitar constrangimentos. Eu não conhecia a guria mas optei por ficar em casa, no outro dia eu tinha que acordar seis da matina para pedalar.

É a milésima quinta vez na vida que troco uma garota pelo pelotão. Será isso um sinal de viadagem? Bem, de certa forma a balela de que ciclistas não podem ter filhos começa a fazer sentido, a possibilidade de eu conhecer alguma garota durante uma fuga do pelotão é difícil, bem difícil.

Sexta não posso, tenho que treinar
Sábado não posso, tenho que dormir cedo para a trilha do domingo
Domingo, pô, domingo é trilha!

ps: Depois, com um sorriso irônico, meu amigo me ligou para falar que a garota era linda. Eu respondi: "É que você não viu a trilha".
Deus me abençoe

No-mesmo-sábado-sem-fim, meu pai estava se divertindo jogando uma partida de dominó com os velhinhos do meu prédio, então aproveitando minha inutilidade (vide post anterior), resolvi fazer a boa ação de ir pegar minha mãe na igreja para deixar o velho em paz.

O bom de ter uma fé bastante questionável é que se torna possível estacionar em qualquer lugar, você não acredita em pecado e devido sua fama de anti-cristo, ninguém vai te encher o saco. Parei o carro em cima da calçada da igreja, joguei a âncora. Agora era só esperar minha mãe. Nessas fiquei conversando com o pipoqueiro, que pelo olhar de lobo nas menininhas fiéis, ele também estava lá só disfarçando sua fé, para vender pipoca publicidade não é pecado.

Fiel vai, fiel vem e me aparece uma ex-namorada do outro lado da rua, sinceramente a mais linda ex-namorada que já tive, maxilar bem desenvolvido, cabelos lisos escorrendo na frente dos ombros, olhos claros, pernas longas e torneadas, entre outras dezenas de atributos que seria indelicado comentar aqui. Bem, de qualquer forma ela estava do outro lado da rua, com um baguá e eu aqui, do lado do pipoqueiro.

A ironia estava no fato que nos separamos depois que ela decidiu se tornar hippie. A parte da liberdade sexual eu concordava, mas andar de trecos pendurados nos cabelos loiros dela e ouvir sons sagrados da Bolívia ai já é demais. Aos dezoito anos eu tinha maturidade suficiente para saber que de hippie me bastavam os da praça da república. Então, oito anos depois, ela estava de aliança no dedo e mãos-dadas com um carinha bonitão que usava um terno impecável e uma gravata com nó Windsor, atenção, era um nó Windsor. Nada daquelas ridículas gravatas com zíper ou nós italianos de auxiliares de qualquer coisa em um banco qualquer.

Porra, era minha ex-namorada hippie, agora com um vestido elegante, ao lado de um lord de gravata com nó Windsor, e eu comendo pipoca na frente da igreja evangélica. Como eles faziam um par bonito e eu não queria que ela se sentisse envergonhada diante do marido pelos remotos tempos de camping selvagem, fiquei na minha. Lembrei de como o mundo dá voltas e sozinho dei risada.

Após a felicidade inicial, o bichão da deprê chegou do lado e me lembrou de como todo mundo evolui e eu estou na mesma. Oito anos atrás ela era hippie enquanto eu usava uma camiseta hering furada. Hoje ela é uma respeitável senhora e eu continuo usando minhas herings.

Fui dormir pensando nisso. Domingo pela manhã o pensamento fugiu (ou eu fugi dele), enquanto eu estava na trilha, sangrando e comendo barro, o marido Windsor dela deveria estar acordando para ver o esporte espetacular na TV. Todo mundo faz escolhas na vida, se para a minha escolha preciso de um GPS e um mapa topográfico, é a minha escolha. Talvez lá para frente eu compre uma gravata. Um beijo menina hippie, sucesso no casamento ;)