15.12.01

"Cousas do mar, que os homens não entendem,
súbitas trovoadas temerosas,
relâmpagos que o ar em fogo acendem,
negros chuveiros, noites tenebrosas,
bramidos de trovões que o mundo fendem."
(Camões)

Mais um verão

Desde criança sempre detestei o verão, sei que é difícil imaginar uma criança que não goste de mergulhar na água gelada em plena tarde de verão. Mas eu era assim, puta criança esquisita, não nego. O sol é um personagem tipicamente brasileiro e eu era uma criança tipicamente européia - apesar de eu nunca ter ido à Europa, já ouvi dizer que o clima lá é exatamente às avessas daqui. Logo, só posso me imaginar como uma criança londrina, um daqueles branquelos estranhos que nunca se adaptarão ao sol - definitavamente eu e o sol não combinamos.

Porém, vez ou outra o verão torna-se meu amigo, lembro-me da minha infância quando ia à casa dos meus avós maternos. Durante todo o ano, meu tio, que morava em uma casa no mesmo terreno dos meus avós, prometia que arrumaria o telhado. Chegava o verão (e as chuvas-de-verão, é claro) e o telhado ainda era o mesmo, então tudo virava uma goteira só - parecia que chovia mais dentro de casa que do lado de fora - para mim, uma criança de apartamento, aquilo era uma grande diversão, nunca chovera dentro do meu apartamento. Imediatamente eu e meu primo, de crianças inúteis nos tornávamos úteis caçadores de goteiras, iniciavam uma competição - uma competição com status de campeonato mundial, com eliminatórias e tudo - de caçadores de goteiras, e meu avô colocando bacias pela casa, uma aqui outra acolá, não... ai não, mais para cá, dizia minha tia traçando as coordenadas exatas da posição da chaleira. Era a verdadeira reunião familiar, um por todos e todos contra as goteiras.

Então começavam os raios, os raios que precediam os trovões, de nada adiantavam meus cálculos de físico da terceira-serie (tô falando que eu era uma puta criança esquisita) informando que pelo intervalo de tempo entre o raio e trovão os problemas estavam muito longe dali, provavelmente em algum pára-raios da cidade, minha avó confiava muito mais no seu quadro da Santa Bárbara do que na física de Benjamin Franklin. Eu lembro bem deste quadro, ele tinha a borda vermelha e a santa carregava um cálice, não sei que diabos minha família gostava tanto de santos, tinha santo para tudo, na minha casa o catolicismo era uma religião politeista, rezávamos para tudo que é ocasião (e seu respectivo santo, é claro). Caiu cisco no olho, Santa Luzia. Perdemos algo, São Longuinho. Choveu, Santa Bárbara. Tia que não casa, Santo Antônio. Algo impossível, São Judas. Emergências? Fácil, Santo Expedito.

Hoje ainda moro em um apartamento, apartamento com outros andares acima do meu e nenhum problema de goteiras, para os raios um eficaz pára-raios e eu nem lembro onde foi parar o quadro da Santa Bárbara (para ser sincero, cresci e tornei-me ateu, o que é compreensível, de tanta opção de santo fiquei com nenhum). Só sinto falta do campeonato de caçadores de goteiras.