28.12.01

Doze promessas que eu NÃO vou cumprir para o Ano Novo...

01. Vou fazer "treinamento de base" no ciclismo
02. Vou controlar meus desejos
03. Vou cobrar muito menos de mim
04. Vou aprender a desenhar
05. Vou aprender origami
06. Vou fazer os exercícios de gramática no curso de inglês
07. Vou fazer os exercícios de gramática e melhorar meu português
08. Vou fazer academia os 12 meses do ano
09. Vou entrar no Yoga
10. Vou parar de torrar grana com bobeiras
11. Vou arrumar meu quarto
12. Vou aprender a tocar violão

24.12.01

Cabelo, cabeleira, cabeludo, descabelado...

Para começarmos, saiba leitor que eu não gosto do meu cabelo. Assim mesmo, direto, na lata, não gosto. Acho ele muito sem graça, eu gostaria na verdade de ter o cabelo como do Wallace no filme "Coração Valente", aquele lance de ser cabeludão com duas trancinhas, puta style... Vira e mexe eu prometo a mim mesmo que vou deixar o cabelo crescer, sempre acabo desistindo mas sempre continuo tentando.

Eu moro com uma irmã, como toda irmã ela acha que sabe mais sobre o meu cabelo do que eu mesmo. O pior é que além de achar ela me lembra de como era legal meu cabelo em 1365 A.C. e coisa e tal, jura que por ser mulher ela sabe como resolver isso. Enfim, eu estava desviando deste assunto até os acontecimentos recentes que antecedem este texto.

Como toda manhã, acordei cedo pensando que aquele dia seria como todos os outros, porém minha irmã, na mesa do café, me conta sobre sua nova descoberta revolucionária, um creme que poderia deixar meu cabelo como eu nunca havia imaginado, era a solução em uma bisnaga de 200ml, a tecnologia a serviço do homem. Ela se mostrou tão entusiasmada que eu resolvi ler a caixa, tudo parecia maravilhoso, talvez influenciado pela proximidade do ano novo e a necessidade ne mudança que todos temos neste período, concordei... Concordei em deixar minha irmã usar seu creme revolucionário nos meus cabelos.

Tudo começou com a leitura das instruções de uso, como todo bom nativo de virgem só uso alguma coisa depois de ler o manual, para ser sincero esta etapa me deixou um tanto quanto preocupado, tudo parecia cronometrado, tudo parecia aula de exatas, passar o creme a um centímetro do couro cabeludo, aguardar 10 minutos, enxaguar 2 vezes, etc. inúmeras instruções e minha irmã com um confiante ar de "Deixa comigo que eu sei".

Então, cuidadosamente ela começa a espalhar o produto pelos meus cabelos e eu aproveitava para ler as instruções novamente, tinha medo de ter deixado algum ponto em branco. Quando então eu li um trecho que não me lembrava "O produto deve ser aplicado num período máximo de 5 minutos", é, definitivamente achei o ponto em branco. Pelas minhas contas minha irmã já estava espalhando o produto por uns quinze minutos, para sanar a dúvida perguntei que horas ela havia iniciado o processo, ouvi um "não marquei" como resposta, foi a primeira vez nesta operação que me senti em apuros.

Após alguns minutos fui enxaguar os cabelos, tudo estava estranho, me sentia como um playmobil, aqueles bonequinhos com o cabelo encaixado, sentia que se eu lavasse tudo com força ficaria careca, então lavei devagar, sequei com cuidado, fui olhar no espelho, hummmm estranho, muito estranho, aqueles cabelos não eram meus (ou pelo menos os meus cabelos que carrego na cabeça desde criança). Era simplesmente impossível controlar a nova massa de fios. Desisto, vou ao cabeleleiro, mais uma vez abandono o plano de chegar no escritório com terno e sapatos italianos e as trancinhas "Coração Valente". Fica para o próximo ano.

20.12.01

Under Pressure

Os gerentes me pressionam para o término do novo sistema.
Meu coordenador me pressiona exigindo mestrado.
Meu pai me pressiona para que eu compre um apartamento.
E eu pressiono o pneu da bicicleta de manhã, uhhhhhh... vou pedalar.

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Recado do David Bowie e do Freddie Mercury para o Wanderlei.

Mm ba ba de
Um bum ba de
Um bu bu bum da de
Pressure pushing down on me
Pressing down on you no man ask for
Under pressure that brings a building down
Splits a family in two
Puts people on streets
Um ba ba be
Um ba ba be
De day da
Ee day da - that's okay
It's the terror of knowing
What the world is about
Watching some good friends
Screaming 'Let me out'
Pray tomorrow gets me higher
Pressure on people people on streets
Day day de mm hm
Da da da ba ba
Okay
Chippin' around - kick my brains around the floor
These are the days it never rains but it pours
Ee do ba be
Ee da ba ba ba
Um bo bo
Be lap
People on streets - ee da de da de
People on streets - ee da de da de da de da
It's the terror of knowing
What this world is about
Watching some good friends
Screaming 'Let me out'
Pray tomorrow - gets me higher higher high
Pressure on people people on streets
Turned away from it all like a blind man
Sat on a fence but it don't work
Keep coming up with love but it's so slashed and torn
Why - why - why?
Love love love love love
Insanity laughs under pressure we're breaking
Can't we give ourselves one more chance
Why can't we give love that one more chance
Why can't we give love give love give love give love
give love give love give love give love give love
'Cause love's such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the (People on streets) edge of the night
And loves (People on streets) dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is our last dance
This is ourselves
Under pressure
Under pressure
Pressure

15.12.01

"Cousas do mar, que os homens não entendem,
súbitas trovoadas temerosas,
relâmpagos que o ar em fogo acendem,
negros chuveiros, noites tenebrosas,
bramidos de trovões que o mundo fendem."
(Camões)

Mais um verão

Desde criança sempre detestei o verão, sei que é difícil imaginar uma criança que não goste de mergulhar na água gelada em plena tarde de verão. Mas eu era assim, puta criança esquisita, não nego. O sol é um personagem tipicamente brasileiro e eu era uma criança tipicamente européia - apesar de eu nunca ter ido à Europa, já ouvi dizer que o clima lá é exatamente às avessas daqui. Logo, só posso me imaginar como uma criança londrina, um daqueles branquelos estranhos que nunca se adaptarão ao sol - definitavamente eu e o sol não combinamos.

Porém, vez ou outra o verão torna-se meu amigo, lembro-me da minha infância quando ia à casa dos meus avós maternos. Durante todo o ano, meu tio, que morava em uma casa no mesmo terreno dos meus avós, prometia que arrumaria o telhado. Chegava o verão (e as chuvas-de-verão, é claro) e o telhado ainda era o mesmo, então tudo virava uma goteira só - parecia que chovia mais dentro de casa que do lado de fora - para mim, uma criança de apartamento, aquilo era uma grande diversão, nunca chovera dentro do meu apartamento. Imediatamente eu e meu primo, de crianças inúteis nos tornávamos úteis caçadores de goteiras, iniciavam uma competição - uma competição com status de campeonato mundial, com eliminatórias e tudo - de caçadores de goteiras, e meu avô colocando bacias pela casa, uma aqui outra acolá, não... ai não, mais para cá, dizia minha tia traçando as coordenadas exatas da posição da chaleira. Era a verdadeira reunião familiar, um por todos e todos contra as goteiras.

Então começavam os raios, os raios que precediam os trovões, de nada adiantavam meus cálculos de físico da terceira-serie (tô falando que eu era uma puta criança esquisita) informando que pelo intervalo de tempo entre o raio e trovão os problemas estavam muito longe dali, provavelmente em algum pára-raios da cidade, minha avó confiava muito mais no seu quadro da Santa Bárbara do que na física de Benjamin Franklin. Eu lembro bem deste quadro, ele tinha a borda vermelha e a santa carregava um cálice, não sei que diabos minha família gostava tanto de santos, tinha santo para tudo, na minha casa o catolicismo era uma religião politeista, rezávamos para tudo que é ocasião (e seu respectivo santo, é claro). Caiu cisco no olho, Santa Luzia. Perdemos algo, São Longuinho. Choveu, Santa Bárbara. Tia que não casa, Santo Antônio. Algo impossível, São Judas. Emergências? Fácil, Santo Expedito.

Hoje ainda moro em um apartamento, apartamento com outros andares acima do meu e nenhum problema de goteiras, para os raios um eficaz pára-raios e eu nem lembro onde foi parar o quadro da Santa Bárbara (para ser sincero, cresci e tornei-me ateu, o que é compreensível, de tanta opção de santo fiquei com nenhum). Só sinto falta do campeonato de caçadores de goteiras.

7.12.01

O mundo e a sorte de um amor tranqüilo

Quando adolescente, me sentia preocupado com o futuro (como se isso não acontecesse agora!), me preocupava com todos os tipos de objetivos para a minha vida e todas estas coisas. Então, ouvindo uma velha canção do Cazuza percebi o que eu queria... o trecho da canção era "Eu quero a sorte de um amor tranqüilo / com sabor de fruta mordida / Nós na batida, no embalo da rede / Matando a sede na saliva / Ser teu pão, ser tua comida / Todo amor que houver nessa vida / E algum trocado pra dar garantia". Enfim, isso é definitivamente tudo que eu preciso na vida.

Percebo agora que no fundo no fundo isso é tudo o que todos querem, isso é tudo o que o mundo precisa. "A sorte de um amor tranqüilo e algum trocado para dar garantia" resolveria todos os problemas do mundo, acabariam as guerras e teríamos a tão sonhada paz.

Para ilustrar minha teoria: Lembram-se da facção "Setembro Negro"? Um grupo extremista da OLP (Organização pela Libertação da Palestina) que na década de 70 tinha o objetivo de fazer o mundo reconhecer o sofrimento do povo palestino (claro que para isso eles faziam o mundo inteiro sofrer, do assassinato de primeiro-ministro jordaniano até seqüestro de atletas de Israel na olimpíada de Munique). Um ano após o lamentável fato ocorrido nos jogos da Alemanha, Yasser Arafat, o grande líder palestino, decidiu que não havia mais sentido a existência do grupo "Setembro Negro" afinal, o mundo já havia voltado os olhos para a palestina e outros atentados não fariam bem à imagem da organização. MAS, quem disse que os integrantes do grupo queriam desistir? Conseguiram fama e status de herói entre seu povo, é claro que eles queriam muito mais, queriam que o mundo se curvasse diante do terror.

Para o leitor desavisado que pensa que eu já perdi a linha de raciocínio, calma... eu chego lá.

Yasser Arafat, para solucionar o problema "Setembro Negro", pediu que seus representantes recrutassem em acampamentos palestinos as mais belas jovens e as convidassem para uma grande festa em Beiruth, simplesmente isto. Do outro lado, garantiu aos soldados do "Setembro Negro" muito dinheiro ganho em um emprego pacífico se em um ano eles constituíssem família e filhos com tais garotas. Oito meses depois, 80% das mulheres da festa estavam grávidas e casadas com os ex-combatentes. E afinal, qual soldado queria correr o risco de deixar seus filhos órfãos e suas esposas viúvas? Este foi o fim do "Setembro Negro".

Hoje, Israel ainda nega a criação do Estado Palestino (assim como os palestinos não aceitam o Estado de Israel), mas uma coisa é certa: Todos eles buscam a sorte de um amor tranqüilo e um trocado (americano) para dar garantia.

Enquanto isso, aqui no Brasil, longe das guerras, eu quero mais é curtir o embalo da rede e pensar no amor tranqüilo, toda a sorte que houver nesta vida.

29.11.01

Nasci em Guarulhos

Por um destes deslizes da natureza, nasci em Guarulhos. Sempre tive um pé atrás com relação ao preenchimento do campo “naturalidade”, algumas vezes até confundia – propositalmente – “naturalidade” com “nacionalidade”, só para evitar escrever Guarulhos nesses intermináveis formulários. Quando criança, nas tradicionais brigas da pivetada lá da minha família, aquelas brigas onde o mais forte é quem ofende mais, sempre soltavam um “guarulhense” que acabava com a minha chance de resposta. Eu tinha resposta imediata para tudo, podiam xingar do nome de bicho que fosse, de todos os palavrões conhecidos por crianças de seis anos, mas o “guarulhense” era demais, acabava comigo, não tinha resposta porque aquilo era verdade, no meio de tanto paulistano eu me sentia diferente, me sentia um estrangeiro vindo de El Salvador para São Paulo, pior que soco na ponta do queixo.

Hoje cresci e deixei as brigas de criança de lado. Minha vida, de segunda-a-sexta, é limitada a resolver problemas em computadores, servidores, tudo é botão-comando-livro-script, tudo é tão bege. Chega o fim-de-semana e vou andar de bicicleta, andar de bicicleta é simples, não precisa nem de servidor, que maravilha. De tanto ficar na cidade de cimento, no domingo eu quero é ver barro. Então, pego a rodovia Fernão Dias e só paro em Mairiporã, neste trajeto passo por Guarulhos. Minha velha Guarulhos que tanto me atormentava na infância, ao passar por lá e seguir em direção das montanhas me sinto feliz, feliz por ser guarulhense, quer saber? Que bom que não nasci em São Paulo. Onde mesmo está aquele formulário?