Eu trouxe a chave
Abandonei meu blog tempos atrás, estava triste, havia perdido a vontade de escrever.
Eu perdi a vontade mas as palavras não se perdem, ficam guardadas.
Ontem estava atento ao "Teatro dos Vampiros" e ouvi a Lígia Fagundes, em um especial da TV Cultura para do centenário do Drummond, ler o texto abaixo.
"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres
Trouxeste a chave?"
Trecho de "Procura da Poesia", Carlos Drummond de Andrade.
Só a "mineirice" do Drummond para me tirar do exílio.